"SLOW RIDE"

“SLOW RIDE”

 

 

Photo by Pedro Pedrosa

 

“SLOW RIDE”

Tudo na vida tem um prepósito. A “ideia” das motas não veio por acaso, na verdade foi o inicio de uma nova fase da minha vida. 2016 não terminou da melhor forma, visto que no final de novembro tive um pequeno grande azar. Um acidente de carro, suficientemente grave, que me fez repensar na vida e da mesma forma deu-me coragem para fazer coisas que sempre adiei, não sei se por receio, alguma falta de coragem ou mesmo por puro comodismo. Muitas vezes adiamos coisas que gostamos por acharmos que temos sempre tempo, e mais tarde torna-se a desculpa mais usada.

De repente vi-me num “slow ride” que não sabia quanto tempo iria durar, nem nisso pensava, o meu estado inicial não me permitia ter essa noção. Convencida que seria mais uma saída passageira, mais uma noite com amigos, e num abrir e fechar de olhos dou por mim numa cama de hospital, sem me mexer e com umas dores insuportáveis. Duas da manha, Avenida Fernão Magalhães, no Porto, a caminho do aniversario de um suposto amigo. Uma situação mal calculada, muda o meu estado em segundos.

“menina olhe para mim” foi a primeira coisa que ouvi de um desconhecido, que parecia lutar tanto quanto eu para me manter acordada. Perdi a noção de tudo, e os poucos flaches que tinha de lucidez eram míseros segundos de perguntas sem resposta. A maioria do tempo estive “apagada”. Não sei ao certo quando me apercebi que estava realmente mal, pensar não era coisa que me lembre de fazer.

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Chegada ao São João e acabada de acordar do coma induzido, ouvi a voz de um miúdo que dizia “vou cose-la”, e eu na minha completa abstração respondi, “não vais, não” e penso que apaguei novamente. Dia seguinte fui transferida de hospital onde permaneci sensivelmente um mês. Foi a pior fase da minha vida, era tortura, nunca imaginei encontrar gente tao insensível e fria. De tudo, é a parte mais difícil de controlar e esquecer. Estava literalmente toda partida, a única coisa que conseguia mexer sem dor, eram os olhos.

Dias longos, horas que pareciam meses, dia e noite de dores insuportáveis que nem a morfina conseguia evitar. O desespero era tanto que os meus pais tiveram de mexer todos os pauzinhos possíveis e imaginários para me tirar dali. E conseguiram. Graças a eles e aos seus amigos conseguimos que a operação se realizasse o mais rápido possível e logo de seguida obtive a autorização para ser transferida para outro hospital. Avizinhava-se a viagem mais longa e dolorosa da minha vida, Famalicão-Trofa.

Finalmente estava livre daquele hospital e a diferença de tratamento era abismal. No publico a pessoa que melhor me tratou foi a empregada de limpeza que prestava apoio na enfermagem. A meu ver a única realmente habilitada para o cargo. Entrada no terceiro hospital. Ali tinha o tempo e a calma necessária para começar, contudo, tudo que dizia, via e pensava era tao momentâneo que hoje de pouco ou praticamente nada me recordo.

O que já dava para afirmar e sem muito medo de errar, era que a recuperação seria lenta e bem gradual.

A ideia que tinha era que da próxima vez que me levantasse iria andar normalmente, a lógica não poderia ser outra porque sempre foi assim, na minha cabeça não seria normal não o fazer, era fácil e eu tinha de o conseguir. Mas não era bem assim, e o destino era a cadeira de rodas ate me aguentar minimamente de pé. A cada tentativa falhada a tristeza inundava-me, a minha sorte era ter ao meu lado pessoas que também acreditavam comigo.

Embora para mim tivessem passado muitos meses naquela situação, a realidade é que passaram 2/3 meses e nesse espaço de tempo recuperei o suficiente para poder voltar a minha rotina quase normal. Tinha a certeza que se me safasse desta e voltasse a andar, iria fazer o que realmente gosto independentemente do que fossem pensar. Foram tempos muito aéreos, não me recordo bem do que fazia e muito menos do que pensava, as coisas esqueciam-se-me muito facilmente e o tempo passava sem eu hoje ter noção de como. Passado um ano do sucedido, teria a grande prova dos nove, a ultima intervenção iria ser feita e eu saberia com pouco tempo de recuperação se tudo ficaria a cem porcento ou não.

A sorte esteve sempre do meu lado, e era altura de recomeçar e de escolher novos caminhos. Afinal, a vida é minha, mais do que nunca, e a minha vontade estaria em destaque. Tinha a certeza que me foi dada uma nova oportunidade. A primeira tinha sido para baixo, mas as próximas seriam todas para cima. Motas era um mundo novo para mim, que decidi que a partir daqui, inevitavelmente fariam parte da minha vida.

 

 

Filipa Gomes
filipa@foxy-riders.com
2 Comments
  • Lídia Rodrigues
    Posted at 20:08h, 04 Junho Responder

    Parabéns Filipa foste uma menina muito forte. Adorei tudo,principalmente o encontro contigo mesmo. Força porque desistir é dos fracos e tu és “Grande”em todos os aspectos.Fico feliz por realmente teres conseguido ultrapassar tudo isto e sentires-te realizada. Sê Feliz.Um beijinho especial para um ser tão especial como tu. 💕🚴🚵💕

    • Filipa Gomes
      Posted at 10:53h, 23 Junho Responder

      Obrigada pela força! Felicidades, beijinhos!

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