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A primeira vez, é sempre desajeitada.

O meu namorado vai com os amigos, quase todos os fim de semana para o “monte”, por outras palavras faziam e fazem enduro na Serra de Valongo, e noutros sítios, mas principalmente em Valongo.

Num domingo qualquer enquanto víamos fotos e filmes sobre o assunto, ele desafia me a acompanha-lo. Era a minha cara, parecia divertido e desafiante e algo novo. Claro que disse que sim!

Chegou a véspera de ir com ele e um dos seus melhores amigos e eu estava ansiosa, mas também nervosa. Uma conhecida minha que também faz enduro disse que nunca ia para Valongo por ser muito perigoso, era só cascalho, pedras grandes, água, lama, ramos de árvores e raízes… Antes de ir dormir, recebo um filme de acidentes de enduro, fiquei em stress total, porém não quis dar parte fraca e fiquei calada. Achei mesmo que ia morrer!! Respirei fundo, pensei para mim que ia com uma pessoa em quem confio e que ele nunca me ponha em situações de demasiado risco. E assim consegui dormir.

Na manhã de ir para o monte, ele entrega me umas calças almofadadas, meias altas e depois começa as mil proteções… De joelhos, de costas, lombar, de peito, ombros, cotovelos e mais algumas que me devo estar a esquecer! Capacete, botas e luvas é claro! Por cima de tudo umas calças reforçadas e uma t-shirt de mangas compridas super fininha. Parecia um boneco Michelin, mas super colorido! “Pronto, vou mesmo morrer” foi o que pensei, visto que não existe desporto com tanta proteção que não seja mega perigoso. Confia, pensei! Posso sempre voltar para trás… Acho. Passo seguinte: conhecer a “minha cabra do monte”, uma “Kawasaki KLX300 a 4 tempos,
“é boa para quem começa”, disse ele.

E seguimos caminho. Um frio de rachar, chuva e eu a pensar o que estava ali a fazer, saímos da estrada e entramos num caminho de terra e pedras por todo o lado, e pensei :

“segue-os e faz igual”.

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Era tudo o que a minha conhecida me contou, mas eu adorei! A maior parte das “estradas” eram como a da foto.

Resultou durante algum tempo, mas chegámos a uma descida em rocha e onde corria água pois chovia. Além disso tinha buracos enormes, pareciam degraus enormes cheios de poças, quando voltávamos à terra havia um “ mini lago barrento” do qual se desviaram e subiram a lateral vertical como se nada fosse. Pronto, entrei em pânico e bloqueei. Aí o Daniel voltou e preocupado disse: “confia na moto, ela passa isto na boa, mas não traves nunca, se não vai ao chão. Tu consegues, faz com calma.” No entanto nada aconteceu, eu estava petrificada no meu sitio. Dez a quinze minutos passaram e várias tentativas de falar comigo em vão, o Daniel diz “vamos voltar para trás”, aquelas palavras atenciosas mexeram comigo. “Nunca fui de desistir” disse para mim, “bora lá, Maria”. Agradeci a atenção, todavia pedi um pouco de mais tempo. Ele desceu e ficou a olhar para mim pacientemente. Eu largo o travão e deixo a mota andar, posso dizer que foi uma descida muito trapalhona, mas sobrevivi e consegui passar pela parede de terra, mas claro nada tão gracioso como eles fizeram. Deu me alguma confiança, no entanto percebi depois de algumas descidas e subidas que me custava muito mais descer. Tinha sempre a sensação que ia cair de cabeça. Porém, já nada me fez parar, ok, mais ou menos isso, chegamos ao famoso gasoduto e perguntaram me se queria ir à volta, eu disse que não, que ia acompanha-los, disseram me como havia de fazer e para não me assustar com aquele mar de cascalho grande e rochas que não conseguia ver para além do horizonte. Desci, fui uma vez ao chão e deixei a moto cair sozinha uma vez. Consegui levantar a moto, dar ao kick com toda a minha frustração. Como não me aleijei fiquei irritada, pois percebi que só me tinha acontecido isso por estar a duvidar das minhas capacidades. Subimos até um ponto com uma paisagem incrível, via-se o Porto ao fundo, Gaia, e outros sítios (foto), foi um local magnifico, para dizer a verdade toda a serra por onde andei era linda, bucólica, floresta encantada que contrastava com todas aquelas personagens que passavam por nós vestidos de cores berrantes e com motos com sons enervados. Fomos almoçar ao Nossa Sra do Salto, as famosas febras no pão comqueijo e ovo estrelado. Estava cansada, não me andava a sentir bem já alguns tempos, mas como me estava a divertir muito nem quis parar, nem voltar para casa. Queria mais, muito mais. Depois de almoço ficámos os dois, continuámos por lugares mais desafiantes. Percebi que conseguia fazer muito mais do que imaginava.
Em resumo, caí três vezes e deixei a moto cair oito vezes, ficámos no monte das 11h ás 18h da tarde. Apreendi a dar ao kick nos sítios mais irreais possíveis, mas houve vezes que foi o Daniel que levantou a moto e a pôs a trabalhar. É bom quando temos alguém que nos quer ver feliz, que nos motiva e desafia. Anda ao meu lado na vida, amigo e companheiro.

O Daniel, mais tarde disse que a manhã tinha sido passeio e a tarde tinha sido treino. Que algumas vezes ele fazia o caminho para ver se era bom para mim, e eu já nem parava ia atrás. Claro que ele estava a andar mais devagar por minha causa. A condução dele é controlada e segura, tudo parece fácil, tal como nos filmes que tinha visto sobre a modalidade. A minha condução era trapalhona e meio desengonçada tal como eu. Ups, é verdade! Também disse que tinha sido a primeira pessoa que ele viu a fazer esta modalidade pela primeira vez e que tinha feito a proeza de descer e subir o gasoduto.

Admito que estava viciada, mas achei mesmo que não tinha muito jeito. Queria muito continuar a praticar. E por isso aquelas palavras encheram me a alma. Os planos eram comprar o material, mas na segunda a seguir tudo na minha vida mudou. Andava-me a sentir super cansada, cheia de sono, parecia que andava drogada de sono, tinha dores nos ovários e de vez em quando desmaiava. Achei mesmo que tinha um tumor, mas não, é possivelmente a maior aventura que vou ter na vida. Estava grávida de 3 meses. O monte vai ter de esperar, mas eu volto assim que puder!

Maria Duarte
maria@foxy-riders.com

Designer, fotógrafa e relação publicas. Tenho uma enorme paixão por motos e desportos radicais. Amo a forma como me fazem sentir! De tal maneira que o meu veiculo do dia a dia é uma BMW F800 e, para mim, escrevo para a melhor revista de motos portuguesa, a REV Motorcycle Culture, onde tenho a oportunidade única de experimentar novas motos, conhecer novos construtores e viver a minha paixão como forma de vida. A culpa foi do meu pai, que um dia chegou a casa com uma Harley Davidson e eu, miúda dos meus 6 ou 7 anos fiquei apaixonada para toda a vida. Aos 10 anos comecei a conduzir motos, mas como não tinha a minha, cheguei a “roubar” a moto do meu jardineiro. Por pensar e agir de forma muito própria, percebi muito cedo que sou responsável pela minha felicidade e que normalmente nada tem a ver com o que a sociedade nos incute, ganhei do meu pai a alcunha de “a rebaldeira”. Também porque adoro experimentar novas actividades e testar os meus limites, apesar de ser muito feminina, gosto de muitos desportos que são considerados, desportos ou actividades masculinas. Para mim, preconceitos! Algo que se manteve constante em toda a minha vida, passear de moto por um dia ou mais sem destino, só guiada pelo meu espirito aventureiro, ainda é das minhas coisas preferidas da vida!

2 Comments
  • FATifer
    Posted at 21:39h, 26 Julho Responder

    Mesmo não tendo qualquer apetência para “fora de estrada”, apreciei este relato.
    Votos de excelentes passeios, quando possível…

    Cumprimentos,
    FATifer

    • Foxy Riders
      Posted at 16:13h, 27 Julho Responder

      Obrigada FATifer!!! Para si também!!!

      Cumprimentos,

      Maria

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