IMG_0758-2

A Melhor Ride Do Ano

Acordei, ouvi a chuva a bater na janela e senti o frio na ponta do nariz. Como era possível, ser a melhor “ride” do ano? A vontade de sair da cama era nula, todavia não queria quebrar a minha palavra. O meu avô sempre me disse, que “quem não tem palavra não tem nada”. Banho quente, roupa que tinha preparado da noite anterior, tudo numa base térmica, comida bem quentinha e pronta para sair de casa. Assim que me sentei na minha Harley, liguei-a, ouvi aquele som e percebi que realmente podia ser “A Melhor Ride Do Ano” já que ainda não tinha andando de moto. IMG_6953

A chegar ao ponto de encontro pouco se via, mas muito se ouvia. Logo que cheguei ao café Velaquez no Porto, começaram a aparecer os motociclistas vindos da bruma. Já tinha a certeza que tinha tomado a decisão certa. Éramos muitos, 126 “riders”, tudo animado. Não pareciam 8h30 da manhã, muita conversa, muitos risos e muito café. De repente, não queria acreditar: a assistência técnica da TonUp Garage era um Porsche 911 e um Jaguar XK120 Roadster de 1949.

Era hora de partir. O líder deu sinal e todos começaram a ligar as suas máquinas, senti um arrepio no corpo com aquela música. Uma “winter ride” sem dúvida, muito frio, céu cinzento e um nevoeiro cerrado, seriam todos os 200km assim? Na verdade, eu ia fazer cerca de 230km, a contar com o meu caminho para casa desde o ponto de encontro.

27164419_1607586029286979_3449624031854536184_o

Assistência em grande estilo, só mesmo na Melhor Ride do Ano!

O Porto ainda me consegue surpreender com a sua beleza, muda a luz e a cidade mostra outra faceta. Saímos pela ponte do Freixo e estávamos a entrar na autoestrada, quando tento fazer uma passagem de caixa e reparo que parte do meu pedal das mudanças tinha saltado, encostei e toda a gente que vinha atrás de mim parou e ajudaram-me a resolver o assunto. Nunca me canso deste companheirismo. Voltamos para a estrada. Passamos por S.J. Madeira, Arouca, Merujal e paramos no Miradouro Frecha da Mizarela.

É um sítio privilegiado pelas paisagens com muito verde, escarpas, riachos e com a neblina criava um ambiente quase mágico. Os caminhos eram estreitos e sinuosos, perfeito para quem gosta de andar em duas rodas. Adoro quando passamos por aldeias e as pessoas ao ouvir o som de tantas motos veem à rua para nos cumprimentar. Os cheiros a campo gelado afrontam o cheiro das lareiras das casas das pessoas. Perto da hora do almoço existiam também aromas a comida,

IMG_6956

Miradouro Frecha da Mizarela

ou então era a minha barriga a dar horas. A maioria comeu no Restaurante “O Mineiro” nas Minas de Regoufe. É um restaurante de família, que só abre se tiver reservas suficientes, naquele dia havia mais que suficientes. O espaço estava a transbordar de pessoas, o ambiente inexplicável, parei para absorver o momento. Eu estava ao pé da bela da lareira, com um copinho de vinho tinto para aquecer até à alma. Apercebi-me então que nós todos naquela sala estavam a celebrar a vida. Sim, o restaurante não tinha net, por isso foi convívio à moda antiga. Giro ver tanta gente de idades diferentes, de vários contextos sociais e tudo a divertir-se.

Quentinhos e muito bem alimentados voltamos para a estrada em direção ao Portal do Inferno. Que sitio único. Íamos retomar a rolar pela serra, continuavam as estradas estreitas e sinuosas com muita inclinação, sempre com paisagens ímpares.

26962501_1604379729607609_4272438516912139812_o

Portal do Inferno por Delfina Brochado

A partir desta hora o passeio passou a ser mais uma grande aventura, muitas das estradas eram mesmo muito inclinadas. E em alguns casos apanhámos gelo, água, lama e mesmo um mar de brita. Exigiu muita destreza dos condutores. Também ouve alguns sustos, porém nada desanimou e o grupo manteve-se unido até ao fim. Passamos as terras Cabril, Alvarenga, Nespereira até voltarmos a parar para abastecer as máquinas. Lanchar, aquecer a alma com o chazinho. Aí descobri que vinham pessoas de todo o lado, desde lisboa, Coimbra, Guimarães, Ermesinde , Barcelos e muito mais. Toda a gente com quem eu falei, só me perguntava se sabia quando era o próximo passeio, o qual não queriam perder.

IMG_2967

Com a Foxy Bety

A ultima parte do passeio, foi sem dúvida a mais difícil para mim, a noite chegou e a chuva veio a acompanhar, faltava fazer a estrada de Entre os Rios até ao Porto, a verdade é que ainda tinha de ir até Leça da Palmeira. Ensopada, cheia de frio, cansada e a ver muito pouco lá cheguei a casa, tomei o belo de um banho bem quente. Sentei-me no sofá confortável depois de 230km a rolar e a única coisa que pensei : Quando será que a “TonUp garage” vai fazer o próximo passeio?

 

Maria Duarte
maria@foxy-riders.com

Designer, fotógrafa e relação publicas. Tenho uma enorme paixão por motos e desportos radicais. Amo a forma como me fazem sentir! De tal maneira que o meu veiculo do dia a dia é uma BMW F800 e, para mim, escrevo para a melhor revista de motos portuguesa, a REV Motorcycle Culture, onde tenho a oportunidade única de experimentar novas motos, conhecer novos construtores e viver a minha paixão como forma de vida. A culpa foi do meu pai, que um dia chegou a casa com uma Harley Davidson e eu, miúda dos meus 6 ou 7 anos fiquei apaixonada para toda a vida. Aos 10 anos comecei a conduzir motos, mas como não tinha a minha, cheguei a “roubar” a moto do meu jardineiro. Por pensar e agir de forma muito própria, percebi muito cedo que sou responsável pela minha felicidade e que normalmente nada tem a ver com o que a sociedade nos incute, ganhei do meu pai a alcunha de “a rebaldeira”. Também porque adoro experimentar novas actividades e testar os meus limites, apesar de ser muito feminina, gosto de muitos desportos que são considerados, desportos ou actividades masculinas. Para mim, preconceitos! Algo que se manteve constante em toda a minha vida, passear de moto por um dia ou mais sem destino, só guiada pelo meu espirito aventureiro, ainda é das minhas coisas preferidas da vida!

No Comments

Deixar uma resposta

%d bloggers like this: